Perispírito: Natureza, Propriedades e Funções

- Kleber Monteiro -

A existência de um segundo corpo intermediando as relações entre matéria e espírito não é uma novidade criada pelo Espiritismo. As mais diversas culturas, ao longo da história, identificam esse envoltório da alma, ainda que sob diferenciadas denominações e figurações. Afinal de contas, o linga-sharira dos hindus, o duplo etéreo dos teósofos, o carro sutil da alma de Pitágoras, dentre tantos outros, referem-se à mesma ideia de perispírito.
Tal estudo pode não despertar muito  interesse no meio espírita e ainda menos entre não espíritas, mas muitos fenômenos presentes na vida estão intimamente relacionados ao períspirito. E quanto melhor entendemos a vida, em seus aspectos mais profundos e espirituais, melhor vivemos. Em meio aos estudos sobre reencarnação, muitos pesquisadores se depararam e continuam a se deparar com um fenômeno muito perturbador. Além de memórias de outras vidas reveladas por crianças, em alguns casos os ferimentos ou problemas que ocasionaram a morte das personas que elas animaram no passado se preservam na vida presente. O Discovery Chanel, em documentário sobre a reencarnação, apresentou o caso de um menino de cinco anos de idade (Ian Hagedom) que dizia ser a reencarnação do próprio avô, um policial que morrera com um tiro no peito durante um assalto. Acontece que o menino não só expressava lembranças muito precisas e íntimas da vida do avô, como nasceu com um problema cardíaco (subdesenvolvimento da válvula pulmonar), justamente na mesma artéria pulmonar atingida pela bala e que provocara a morte do velho policial, do “seu avô”. Como entender isso? Por que um dano causado no corpo pode se preservar após a morte e ainda persistir em novo corpo, na presente encarnação, conforme o caso citado? Aí a existência do perispírito e sua compreensão mínima constituem o fundamento para melhor se entender o fato. Interessantes estudos, como os desenvolvidos por Harold Saxton Burr, professor de anatomia da Yale University, vêm corroborando a existência de um modelo organizador biológico, a ideia diretriz do fisiologista Claude Bernard. Este corpo perispiritual seria o responsável pela formação e características dos organismos vivos, antecedendo e determinando as informações genéticas disponíveis. No homem, esse modelo que chamamos de períspirito molda o corpo e transmite a este as suas condições, ou seja, se houver deformações ou traumas na estrutura perispiritual, elas se expressam no corpo. Uma ilustração muito interessante de tal processo é o que ocorre no romance de Oscar Wild, O Retrato de Dorian Gray. Pois bem, muito além do corpo, nossas ideias, atitudes, valores, sentimentos, enfim, tudo o que somos modela o perispírito e determina a nossa condição após a morte. A condição do perispírito no caso Ian foi o que determinou a permanência do trauma em sua atual vida. Penso que se cria, assim, uma ampla perspectiva quanto ao estudo e à consciência da profundidade e complexidade da vida. Conforme definição de Kardec em artigo da Revista Espírita de 1858, cujo título é Sensações dos Espíritos: “O perispírito é o laço que à matéria do corpo prende o Espírito, o qual o tira do meio ambiente, do fluido universal. Participa ao mesmo tempo da eletricidade, do fluido magnético e, até certo ponto, da matéria inerte. Poder-se-ia dizer que é a quintessência da matéria. É o princípio da vida orgânica, porém não o da vida intelectual, que reside no Espírito”(pág. 500). Devido à falta de instrumentos de verificação e estudos mais aprofundados da ciência nesse campo movediço das imbricações entre matéria e Espírito, embora a Física Quântica venha projetando luzes muito alvissareiras, a definição citada ainda é a melhor que se tem acerca da natureza do períspirito. É essa natureza eminentemente espiritual que dota o envoltório da alma de propriedades especiais, pois que até mesmo a matéria nele presente se encontra em estado sutil (quintessenciada: refe- rência à quinta essência da matéria, denominada desde a antiguidade por éter. As demais eram o fogo, a terra, a água e o ar). Desse modo, o períspirito é maleável, dinâmico e imponderável, pois as experiências mediúnicas e anímicas, a exemplo da visão à distância ou dupla vista, como a que manifesta Jesus quando vê o jumento antes de entrar em Jerusalém (Marcos 11: 1-7), da percepção extra-sensorial identificada pela Parapsicologia em experiências de telepatia e clarividência, assim o evidenciam. Vale salientar que os fenômenos espirituais, nos quais o perispírito é imprescindível, estão presentes na vida e são absolutamente naturais. Certa feita, uma colega de trabalho comentou que algo incrível lhe acontecera. Começou a pensar com muita preocupação em uma amiga que estava em Angola, pois sentia que ela passava por grande dificuldade, mas sem saber como, nem por quê. No dia seguinte a referida amiga telefona de Angola e fala que estava em profunda depressão, cheia de problemas pessoais, e que vinha pensando nela há alguns dias. Esse é um exemplo mais do que comum de percepção cuja raiz está nas propriedades do perispírito. O que ela sentiu não proveio dos sentidos localizados no corpo. Com isso, entram em questão as funções do perispírito. Segundo Allan Kardec, este corpo psíquico nada mais é do que um agente de transmissão, pois é no Espírito que está a consciência. O períspirito exerce, desse modo, a função de intermediar informações entre Espírito e corpo. Após a morte do corpo ou do afastamento da alma em qualquer grau, esse envoltório passa a ser o agente das sensações do Espírito. Se no corpo os sentidos estavam localizados, no perispírito elas se generalizam e se expandem. Por isso, no caso citado das amigas, uma no Brasil e a outra em Angola, foi possível a percepção, independente dos olhos, ouvidos, enfim, do corpo. Carlos Bernardo Loureiro, em seu livro Perispírito – Natureza, Funções e Propriedades, faz a seguinte afirmação, informando-nos da função do perispírito enquanto força plástica diretora: “O perispírito é o regulador das funções, o artífice que vela pela manutenção do edifício biológico, porque essa tarefa não pode, absolutamente, depender das atividades cegas da matéria” (pág. 18 e 19).É atribuída, ainda, ao perispírito a função de preservar a memória, pois as diferentes e múltiplas experiências ao longo da história de cada Espírito, na formação de sua individualidade e no despertar de suas potências divinas, vai se incrustando em suas camadas, como o substrato das vivências grifado nos refolhos da alma.



 

 


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