O Exercício Mediúnico

- Kleber Monteiro -

Todo o conhecimento que possuímos acerca da existência do Espírito, das dimensões espirituais e das suas consequências filosóficas é fruto da mediunidade. Se o próprio termo já indica mediação, não há dúvida de que esta faculdade natural, que se expressa em todas as épocas e independe de crenças, representa um complexo mecanismo de percepção da realidade existencial inacessível aos nossos sentidos comuns, a partir dos quais defi- nimos a realidade ou normalidade.

O mediunismo é uma constante na vida, seja nos fenômenos mais simples, como a vaga sensação de uma presença oculta aos sentidos corpóreos para identificar os “mortos”, ou nos mais extraordinários, a exemplo de uma cirurgia espiritual realizada pelo médium José Arigó em um homem, no qual diagnosticou um câncer no estômago: “Arigó usou de um método muito raro em sua clínica. Enterrou as mãos na parede abdominal do paciente e, sem fazer uso de uma faca, dali extraiu uma quantidade de tecido sanguinolento. O homem tornou a consultar seu médico, fazendo novas radiografias do estômago, tendo sido confirmada a eliminação do câncer.” (MEEK, George W.  As Curas Paranormais. Ed. Pensamento, p. 46 e 47).

Nem sempre, contudo, o resultado é bom. O mal, vale dizer, não está na mediunidade, às vezes deplorada por alguns médiuns como uma verdadeira praga em suas vidas. Trata-se apenas de uma faculdade comum ao homem. O problema, quando há, decorre do desconhecimento. Tentar o contato com os chamados mortos sem o mínimo preparo é arriscar-se em terreno desconhecido e movediço.Daí a advertência de Kardec, logo na Introdução de O Livro dos Médiuns: “A prática do Espiritismo está cercada de muitas dificuldades, e não está sempre isenta de inconvenientes que só um estudo sério e completo pode prevenir.”

Mas, então, como podemos entender a mediunidade em seu funcionamento? Eis uma questão ainda muito difícil de responder. A partir dos estudos de Kardec, de outros tantos pesquisadores, de relatos de médiuns e das explicações de Espíritos, podemos apontar algumas constantes essenciais ao exercício da mediunidade.

Os mais expressivos relatos de médiuns sobre as suas sensações ao entrar em contato com os Espíritos correspondem a um dado estado de relaxamento, o transe. Chico Xavier na reunião da noite de 8 de julho de 1927: “... de repente, se sentiu fora do corpo. As paredes desapareceram, o telhado se desfez e, no lugar do teto, ele viu estrelas”. (MAIOR, Marcel Souto. As Vidas de Chico Xavier. Ed. Planeta, 2ª ed., p.32). A grande médium, Elisabeth d'Espérance, conta o seguinte: “...a sala, iluminada pela claridade do fogo, desapareceu para mim e julguei estar ao ar livre, em lugar desconhecido. Ouvia o farfalhar das árvores e o murmúrio do vento...”. (D’ESPERANCE, E. No País das Sombras. Ed. FEB, 7ª ed., p.94).

Esse estado específico é o que melhor proporciona a expansão do sentido do nosso corpo psíquico, chamado de perispírito, cuja natureza fluídica promove a interação espiritual capaz de por em comunicação os “vivos” e os “mortos”. Herculano Pires, ao explicar o ato mediúnico, apresenta um quadro muito ilustrativo: “O ato mediúnico é o momento em que o espírito comunicante e o médium se fundem na unidade psico-afetiva da comunicação. O espírito aproxima-se do médium e o envolve nas suas vibrações espirituais. Essas vibrações irradiam-se do seu corpo espiritual atingindo o corpo espiritual do médium. A esse toque vibratório semelhante ao de um brando choque elétrico, reage o perispírito do médium. Realiza-se a fusão fluídica. Há uma simultânea alteração no psiquismo de ambos... Ligados os centros vitais de ambos, o espírito se manifesta emocionado, reintegrando-se nas sensações da vida terrena, sem sentir o peso da carne.”  (PIRES, Herculano J. Mediunidade. Paidéia, 4ª ed., p.37).

As propriedades essenciais da matéria e a nossa estrutura psíquica são duas variáveis fundamentais à mediunidade, mas ainda pouco conhecidas. Por sua relação íntima com a nossa estrutura fisiológica, abre-se uma ponta do véu para entendermos os fatos mais espantosos, a exemplo de doenças simuladas por Espíritos no corpo de um médium.

Resta-nos dizer, porém, que a esta é uma faculdade profundamente determinada pela moral, não se ajustando à pura e simples satisfação da curiosidade humana. Se a mediunidade é desnaturada em práticas místicas e interesseiras, daí não pode vir bons frutos.



 

 


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