O Bem e o Mal

- Djalma Argollo -

Existe no mundo tanto o mal quanto o bem. Porém, na verdade, o mal parece onipresente, enquanto o bem é um tanto raro, chegando a causar admiração, quando praticado. No mundo são encontradas pessoas más e pessoas que produzem males, mesmo sem o querer, sem o saber. Já outros males são realizados com plena consciência por quem os faz. Igualmente, existem os males que se abatem sobre os seres, decorrentes de fenômenos naturais, causando sofrimentos agudos e irreparáveis, esse são fruto do meio ambiente, criado por Deus, ou sob sua permissão.

Santo Agostinho dizia que o mal é uma privatio boni (ausência do bem). Um problema deriva dessa afirmação: que o bem pode deixar de existir; mas, como “ausência”, o mal não teria essência em si mesmo; seria simplesmente um “vácuo” do bem. O Cristianismo afirma que o Diabo e o inferno são eternos, a afirmação do Bispo de Hipona é um contrassenso: como pode um “vazio”, sem substância em si mesmo, persistir por toda a eternidade?

Por outro lado, existe a afirmação que Deus é o summum bonum (o bem máximo), no qual não existe a menor sombra de mal; aqui se cria um dilema: sendo Deus apenas o bem, de onde veio o mal? A resposta fácil vem logo à boca: o mal é de origem humana! Ah! O mal seria o resultado da desobediência de Adão e Eva. E nós pagamos o pato, sem nem existirmos ainda, pois, segundo o Cristianismo, a alma é criada no momento da concepção. Fazendo-se do mal uma criação humana, se incidi em contradição flagrante: tudo o que existe foi criado por Deus, direta ou indiretamente, assim, como pode existir algo que nada tenha a ver com ele? Em sendo verdade que Deus criou o homem e que este criou o mal, foi ele quem criou o mal, através de um interposto. (Ver A Gênese, Capítulo III, da primeira parte).

O mal é tanto uma oportunidade de crescimento, quanto o bem. A escolha má gera dificuldades e sofrimentos, que forçam a tomada de novas e corretas atitudes. A parábola do filho pródigo é bem clara a esse respeito. O filho estroina voltou mais sábio, enquanto o que ficou em casa, sob a proteção do pai, mostrou-se egocêntrico, rancoroso e revanchista. O filho pródigo fez o certo: saiu de casa, reivindicou sua autonomia e arriscou. Cometeu erros, é claro, mas aprendeu com eles: descobriu-se falível e as consequências lhe deram experiência, tornando-o mais sábio. Vê-se, nesse caso que o mal gera o bem; mas o bem gera o mal.

O Cristianismo, indiretamente, afirma que Deus é o autor do mal, pois a serpente do Paraíso foi criada por ele já maléfica. Colocar um casal ingênuo e inexperiente, para conviver com um ser maldoso, foi desejar que errassem. Os seres humanos, de uma forma geral, sempre foram expostos ao mal pela própria divindade sem, na maioria dos casos, dar a eles a oportunidade de “redenção”. Os Maias, Astecas, Incas, e demais povos pré-colombianos, que sacrificavam seres humanos, para agradar aos deuses, foram criados em tal situação e nas mantidos, pela divindade. Dizia Sócrates que o mal é produto da ignorância, e os seres humanos não foram criados sábios, e como quem os criou nessa condição foi Deus, logo, Ele não só criou o mal, este é uma premissa necessária à sua criação. Pode-se afirmar que, como opostos, o bem e o mal tendem a se resolver na experiência que produzem. Heráclito de Éfeso afirmava que a guerra é a mãe de todas as coisas e de todas as coisas a rainha (o Livro dos Espíritos afirma que a guerra existe para o progresso da humanidade). O Universo, por exemplo, se apresenta como imenso campo de opostos que se entrechocam, para criar novas oportunidades de diferenciação e de progresso. Sem opostos que se digladiem, não é possível haver evolução. Bem e mal são, na alma, opostos que se desafiam e promovem, pela resolução, a ampliação da consciência e a harmonia interior.

O Espiritismo ensina que tudo o que existe é produto de uma evolução; que vem dos primórdios da Natureza. Ficando apenas no aspecto biológico, o espírito evolui através dos reinos vegetal e animal, em seus diversos gêneros, famílias, filos e espécies. E quais são as vivências e aprendizados nessas etapas? Um exercício continuado de violência, dissimulação e egoísmo puro e simples, na chamada luta pela vida. A Natureza é brutal, violenta e não poupa nenhum ser. Como seres humanos, somos um ramo dos animais superiores, diferindo deles, apenas, pelo ego consciência, adquirida aos poucos, e em convivência com os instintos. Não poderíamos sair da animalidade inconsciente para a consciente, virando anjos de imediato. Logo, o mal é uma condição natural, implícita à própria evolução. E não se apele para o livre-arbítrio! Como ter livre vontade, quando se é dirigido por impulsos inconscientes, portanto desconhecidos? Quem lida com a mente humana sabe o quanto somos condicionados pelo meio onde nos desenvolvemos. Colocando Deus na história: não há liberdade de escolha, quando ele sabe, a priori, tudo o que se vai escolher? Para o Cristianismo Deus sabia, antes de criar Hitler, tudo o que ele pensaria, sentiria e realizaria, de mal. Mas assim mesmo o criou! Como afirmar que Hitler “escolheu” ser da forma que foi? Uma escolha para ser livre tem de ser probabilística, aleatória, inesperada, surpreendente. Se o ser que cria sabe, antecipadamente, qual será a escolha onde a liberdade? A aleatoriedade está ausente, pois seu imperativo categórico é ser imprevisível. Na verdade o mal é um oposto imprescindível ao bem. O atrito deles, de acordo com a dinâmica dos contrários, produz a tensão necessária ao desenvolvimento da alma. O mal, em suas diversas formas, gera conflitos psíquicos, que obrigam o esforço do autoconhecimento. O mal faz parte intrínseca da criação, um contínuo bem-mal, no qual acontece o drama evolutivo do espírito.


 

 


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