Mitologização de Jesus

- Djalma Argollo - 

 

Jesus foi mitologizado desde o início de sua missão entre nós, como acontece com todo aquele que se destaca por atributos fora do comum no campo religioso. Veja-se o caso de Francisco de Assis: durante sua existência já se formara um todo um mito sobre ele. O mesmo aconteceu com o nosso Francisco, o Cândido Xavier. Ele que tudo indica foi alguém dos círculos franciscanos da primeira geração (Talvez o próprio Frei Elias, em trabalho de superação do complexo de culpa pela traição aos ideais do Poverello), cujo mito o acompanhou desde o início de seus trabalhos mediúnicos.

A primeira mitologização da pessoa de Jesus aconteceu entre os discípulos, ainda durante a convivência com ele e, consciente ou inconscientemente foi induzida pelo próprio Jesus. Continuando a pregação de João, o que mergulhava: Mudai vossa mente, porque é chegado o reino dos céus (Mt 3, 1-2). Isto deu a impressão aos seus seguidores que ele vinha restaurar as fantasias mitológicas das eras imperialistas de David e Salomão. Prova de que eles entendiam assim, temos na seguinte passagem:

Então, chegou-se a ele a mãe dos filhos de Bedel, junto com seus filhos, prestando homenagem e rogando alguma coisa. Ele lhe disse: O que queres? Disse ela: manda que eles possam se sentar, os meus dois filhos, um à tua direita e um à tua esquerda, no teu Reino (o esperado Reino Messiânico). Respondendo Jesus, disse: Não estais sabendo o que me pedis; podeis beber o cálice que estou para beber? Disseram eles: Podemos. Disse-lhes ele: O meu cálice bebereis; porém, sentar-se à minha esquerda e á direita, não está em eu concedê-lo; isso é para o que está preparado por meu Pai. E tendo escutado isso, os dez se indignaram com os dois irmãos. Porém Jesus, chamando-os a si, lhes disse: Sabeis que os governantes dos não judeus tiranizam sobre eles, e os grandes exercem domínio, sobre eles. Não deverá ser assim, todavia, entre vós; pelo contrário, aquele dentre vós que quiser se tornar grande, deixai-o ser vosso serviçal. E, dentre vós, o que quiser ser o primeiro, deixai-o ser vosso escravo. Assim como o filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e dar sua existência física para alforria de muitos (Mt 20, 20-27).

 Quanto ao título de messias e filho de Deus, embora nos sinóticos ele nunca o usasse, também nunca se opunha a que lhe atribuíssem esses qualificativos e, mais, elogiou Simão, apelidado por ele de kephas, ou pedra, de forma enfática, pedindo aos discípulos que guardassem segredo sobre o que era, até que morresse: Havendo Jesus chegado às regiões de Cesaréia de Filipe, começou a perguntar a seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o filho do homem? Eles responderam, dizendo: Alguns, João, o que mergulha (materializado); outros, Elias (reencarnação de); e vários, Jeremias (reencarnação de) ou algum dos profetas (médium profético reencarnado). Disse-lhes ele: Vós, porém, quem dizeis que eu sou? Respondeu-lhe Simão Pedro, dizendo: Tu és o Ungido, o filho do Deus vivo. Respondeu-lhe Jesus, dizendo:

 És Feliz, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne e o sangue que te revelou isto (revelação mediúnica), porém meu Pai que está nos céus (na Espiritualidade Superior). Eu também te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha comunidade, e os portões do mundo dos mortos não terão forças contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino dos céus; e seja quem for que amarrares, portanto, na Terra, será amarrado nos céus; e seja quem for que soltares na Terra, terá sido solto nos céus. Então, instruiu aos discípulos para que não dissessem a ninguém que ele era o Ungido (Mt 16, 13-20).

 Um primeiro sinal de mitologização está no nascimento virginal. Ou seja, Jesus foi colocado na condição de filho de Deus, no mesmo sentido em que era utilizado pelos politeístas para diversos dos seus heróis, como Hérakles, por exemplo, que era filho de uma relação sexual entre Zeus e Alcmena. O que lhe conferiu uma força sobre humana, capacitando-o a realizar tarefas extraordinárias, como separar o estreito de Gibraltar, que era conhecido na Antiguidade Clássica como Colunas de Hércules, nome latino de Hérakles. Outro foi Asclépios, em latim Æsculapio, filho do deus Apolo e Coronis, filha de Phlégias, rei dos Lépidas, cuja capacidade curadora, aprendida com o centauro Quiron, era digna do filho de um deus, pois chegou a ressuscitar os mortos, o que lhe valeu ser fulminado por Zeus, por causa da queixa de Hades, o deus dos mortos, o qual estava sendo prejudicado pela diminuição do aporte de almas ao seu reino. E assim sucessivamente.

Os quatro Evangelhos são uma prova de que o mito Jesus teve uma estruturação durante sua encarnação, e foi se ampliando após sua desencarnação. Suas matrializações diante de inúmeras pessoas, como por exemplo os quinhentos da Galiléia, fortaleceram o conceito de ressurreição corporal. Paulo de Tarso, por natural ignorância do fenômeno, fez das corporificações ectoplamáticas do Mestre a base de sua teoria da ressurreição no Juízo final, exposta na sua primeira epístola aos Tessalonicenses.

Tudo isso foi uma pena, pois Jesus, na minha opinião, é o maior ser humano que já existiu. Um espírito de alta hierarquia evolutiva que encarnou, viveu nossos problemas cotidianos e sofreu com nossas misérias morais. Deixou-nos um exemplo extraordinário, a ponto de Friedrich Nietzsche dizer: ...Cristo morreu para indicar como se deve viver: A prática da vida é o que ele deixou em herança aos homens: sua atitude diante dos juízes, dos sicários, dos acusadores e de toda espécie de zombaria e calúnia, a sua atitude sobre a cruz... E de fato, Jesus é definido pela pergunta e a resposta, em O Livro dos Espíritos:

 Qual é o tipo mais perfeito que Deus ofereceu ao homem para lhe servir de guia e de modelo?

“Vede Jesus.”

 Jesus é para o homem o tipo da perfeição moral à qual pode pretender a humanidade sobre a Terra. Deus no-lo ofereceu como o mais perfeito modelo, e a doutrina que ele ensinou é a mais pura expressão da sua lei, porque ele estava animado do espírito divino, e é o ser mais puro que existiu sobre a Terra (questão 625 e início do comentário de Kardec).


 


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