A Tênue Fronteira Entre o Aqui e o Além

- Kleber Monteiro -

Ver alguém que já partiu desta vida, seja um parente, conhecido ou um desconhecido; ou ouvir a sua voz, continua a assustar e fazer desesperar quem se depara com esse possível contato com o “mundo dos mortos”, cuja denominação é múltipla no conjunto das tradições religiosas ao longo da história da humanidade.

É comum atribuir-se tais percepções à imaginação ou a disfunções mentais. Jung, por exemplo, afirma em um de seus escritos, A Natureza da Psique, que a aparição ou visão de espíritos são projeções do inconsciente. Isso, contudo, não eliminou a veracidade de fatos que lhe aconteceram, envolvendo o contato com os mortos, por ele mesmo relatadas, muitas descritas em Memórias, Sonhos, Reflexões. Mesmo com toda negação e negligência, os fatos psíquicos se impõem e desafiam a nossa compreensão.

E foram os fatos, os fenômenos, que se definiram para Allan Kardec, em suas pesquisas preliminares à elaboração de O Livro dos Espíritos. Apresentaram-se como Espíritos, seres inteligentes que vivem em uma dimensão que lhes é específica, o Mundo dos Espíritos. Mas como esse é um mundo que escapa à nossa percepção comum, Kardec resolveu, adotando um método adequado à peculiaridade do processo de comunicação com os Espíritos, entrar em contato com os mais variados tipos, do mais ignorante e inferior até o mais esclarecido e evoluído, e coletar significativo conjunto de relatos acerca dessa outra dimensão.

Cabe observar, também, a possibilidade de acesso a esse outro mundo paralelo ao nosso por meio da vidência. Se esse não era o caso de Kardec, há grandes exemplos, como é o caso de Swedenborg. Mas, ainda que constitua material interessante, as descrições feitas com base na percepção pessoal sempre apresentaram marcas da influência do próprio vidente em sua apreensão da realidade espiritual.

Essa foi a conclusão a que chegou Kardec em relação aos Espíritos, pois cada um apresentava um recorte próprio de sua realidade dimensional, em função de seu grau de progresso. Por esse motivo, o codificador do Espiritismo chamou a dimensão espiritual de Erraticidade, por desdobrar-se em uma realidade multifacetada, em multidimensões povoadas de Espíritos que não alcançaram o grau de perfeição absoluta, realidade que escapa até mesmo à nossa imaginação.

 

A existência, então, desse além da vida está dissociada do nosso mundo, o aquém? É bom observar, um pouco antes de entrarmos no mérito da questão, que a existência de mundos ou universos paralelos não está mais relegada ao campo pantanoso e movediço da superstição, haja vista a contribuição pioneira do Espiritismo e dos avanços da física moderna.

Para não nos alongarmos muito na descrição dessas outras dimensões constatadas pela física moderna, com a contribuição da Teoria da Relatividade e especialmente da Física Quântica, vejamos a seguinte ilustração explicativa:

O prêmio Nobel Steven Weinberg compara esta teoria de universo múltiplo com o rádio. Por toda a parte, cercando você, existem centenas de ondas de rádio diferentes sendo emitidas de estações distantes. Num determinado instante, o seu escritório, o seu carro ou a sua sala de estar se enchem destas ondas de rádio. (...) Cada estação tem uma energia diferente, uma freqüência diferente. Consequentemente, o seu rádio só pode estar sintonizado numa estação de cada vez.” (Michio Kaku, in Mundos Paralelos, pg. 167)

De fato, essas outras freqüências correspondentes a outras realidades paralelas coexistindo com o nosso Universo, não são facilmente sintonizadas, caso contrário, faria parte habitual de nossas vidas, como algo corriqueiro. Porém, não há essa separação tão bem delimitada. É através das experiências psíquicas que observamos o quanto são tênues as fronteiras entre a nossa e as outras dimensões.

 Há casos que são realmente incomuns, como o que aconteceu e foi relatado por Carlos Bernardo Loureiro no último capítulo de seu livro “Outras Dimensões”. O Grupo Ambroise Pare, fundado por ele e Lúcia Loureiro em 1985 (na cidade do Salvador/Ba) para fins de pesquisa das faculdades mediúnicas e anímicas, teve a oportunidade de observar a materialização de um espírito chamado Noiva. Na última sessão em que apareceu, Noiva pediu um cartão postal de Allan Kardec, adquirido por Bernardo e Lúcia no cemitério Pere Lachaise (Paris). Dado o presente, o espírito agradeceu e partiu, levando consigo o cartão que não mais voltou. De forma muito coerente, o autor do livro comenta o espantoso acontecimento envolvendo o cartão: “Parece que fica em estado imponderável, estado, pois, de acordo com a estrutura molecular da dimensão em que se encontra.” (Carlos Bernardo, in Outras Dimensões, pg. 199)

Esse trânsito de uma dimensão para outra, cuja possibilidade é dada pela estrutura íntima que compõe as coisas e a própria vida, não está limitado a fenômenos tão incomuns como o citado. Os fatos psíquicos envolvendo o contato, a interação entre dimensões, entre o que se costuma chamar de além e o aquém, são mais comuns do que se pensa. Sem nos estendermos em demasia, podemos dizer que essas interações passam por uma forma de percepção muito mais de acordo com a nossa atividade inconsciente. Daí, determinadas formas de sentir e conhecer que espantam por estarem distanciadas das vias do pensamento analítico, como a precognição, a telepatia, a sensação de presenças ocultas aos sentidos imediatos do corpo, e tantas outras.

A ciência moderna, por meio da física quântica, vem chegando a conclusões que se aproximam dessa realidade das interações interdimensionais, especialmente por identificar o papel da consciência na formação da realidade. Vejamos o que diz Fritjof Capra a respeito disso:

A teoria quântica revela, assim, uma unidade básica no universo. Mostra-nos que não podemos decompor o mundo em unidades menores dotadas de existência independente. À medida que penetramos na matéria, a natureza não nos mostrar quaisquer ‘blocos básicos de construção’ isolados. Ao contrário, surge perante nós como uma complicada teia de relações entre as diversas partes do todo. Essas relações sempre incluem o observador, de maneira essencial. O observador humano constitui o elo final na cadeia de processos de observação, e as propriedades de qualquer objeto atômico só podem ser compreendidas em termos de interação do objeto com o observador. Em outras palavras, o ideal clássico de uma descrição objetiva da natureza perde sua validade. A partição cartesiana entre o eu e o mundo, entre o observador e o observado, não pode ser efetuada quando lidamos com a matéria atômica. Na Física atômica, jamais podemos falar sobre a natureza sem falar, ao mesmo tempo, sobre nós mesmos.” (Fritjof Capra, in O Tao da Física, pg. 58)

No séc. XVIII, o filósofo Immanuel Kant fez a seguinte afirmativa:

 “... Será provado no futuro, não posso conceber onde e quando, que também nesta vida a alma humana se mantém em união indissolúvel com todos os seres do mundo espiritual; que neles produz efeitos e, em troca, deles recebe certas impressões sem todavia ter delas conhecimento, uma vez que tudo se conserva no estado normal.” (J. K. Friedrich Zöllner, in Provas Científicas da Sobrevivência, pg. 35 - Kant, vol III, pg. 32)

Talvez esse futuro já esteja em curso no presente, especialmente com a forma amadurecida da ciência conceber o elemento humano como um elemento consciente indissociável dos universos, o nosso e os demais que formam os outras dimensões. Afinal de contas, um dos cientistas responsáveis pela física quântica, Max Planck, ponderou: “A ciência não pode solucionar o mistério supremo da natureza. E é porque, em última análise, nós mesmos fazemos parte do mistério que estamos tentando resolver.” (Michio Kaku, in Mundos Paralelos, pg. 156)



 


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