A Lição do Lenho

- Carlos Bernardo Loureiro -

Era menino quando conheci Artur de Sales (1859-1952), poeta baiano, dos últimos,
certamente, a fazer do verso a razão de sua própria existência, plena que era ela de melancolias, de sonhos irrealizados, tudo num misto de alegria e sofrimento. Morava ele, como eu, na Boa Vista de Brotas (Rua Marquês de Abrantes), Salvador, onde, ao fim da rua, se erguia, mudo e marcado pelas cicatrizes deixadas pelo tempo, o vetusto casarão em que, um dia, morou Castro Alves, o inigualável poeta dos escravos. Artur de Sales costumava, manhã cedo, caminhar pela comprida rua, absorto nas meditações profundas de sua mente fértil, arquitetando versos. E lá se ia ele, passos lentos, cabeça alva, pendida ao peito, balbuciando palavras que os menos avisados poderiam julgá-las frutos do delírio. E era, sim: do delírio do Verso, que se lhe escapava murmurante dos lábios murchos. A mim parecia estar orando... Verso concluído, sentava-se à beira da calçada, e registrava-o no papel amassado tirado do bolso. A mão trêmula, segurando o toco do lápis, corria com dificuldade. A fisionomia, toda ela, irradiava um quê de estranhos e místicos sentimentos. E ali, sozinho, arredado do mundo, da rua, de tudo, lançava sobre o papel quase roto as suas mais ardentes e cintilantes aspirações, os seus mais íntimos e espirituais segredos. Um dia desencarna Artur de Sales, um dos derradeiros e autênticos simbolistas... Revi Artur de Sales. Os mesmos versos, os mesmos: trabalhados com esmero, tersos, conquanto impregnados não daquelas martirizantes perquirições, mas verdadeiros e transcendentalizados hinos de fé e de esperança. Ei-lo em Espírito, não mais triste nem só, porque integrado à corte divina dedicada a semear palavras em feitio de oração — bálsamo às feridas do corpo e aos desesperos da alma:


                                                A Lição do Lenho*


                                            Erguia-se, ditoso, o tronco peregrino,
                                            Amava a passarada, o vale, a fonte, o vento!...
                                            Um dia, geme e tomba ao machado violento...
                                            Alguém surge e faz dele emérito violino.


                                            Ninguém lhe viu no bosque o trágico destino,
                                            Hoje, porém, alheio ao próprio sofrimento,
                                            Comove multidões... E segue, humilde e atento,
                                            O artista que lhe tange o arcabouço divino.


                                            Oh! coração, se o mal te fere, pisa, corta
                                            E te lança por terra a vida semimorta,
                                            Lembra o lenho harmonioso — intérprete profundo!


                                            Entrega-te a Jesus e Jesus há-de usar-te
                                            A transfundir-se a dor em luz, por toda a parte,
                                            Enxugando contigo as lágrimas do mundo!...


(Soneto recebido pelo médium Francisco Cândido Xavier, em reunião pública da Comunhão Espírita Cristã, na noite de 25-3-67, em Uberaba, Minas.)

* O soneto A lição do lenho consta do livro “Poetas Redivivos”, no 85, ed. FEB, p. 121 , onde o nome do autor aparece como Arthur de Salles. O Anuário Espírita — 1968 (IDE, Araras-SP, p. 75) publica o referido soneto também com o nome Arthur de Salles. Na “Antologia dos Imortais” (edição FEB de 1963) são publicados dois sonetos do referido Espírito-poeta — História de Amor (p. 322) e História do Destino (p. 323) com o nome do autor grafado — Artur (Gonçalves) de Sales. Em face das divergências, respeitamos a grafia do autor do artigo: Artur de Sales. (Nota da Redação.)



 

 


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